IGREJA E SOCIEDADE



FORMAÇÃO DE LÍDERES NA IGREJA E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A SOCIEDADE
João Marcos da Costa Bezerra[1]

RESUMO


A igreja evangélica tem o potencial para a formação de líderes com alta possibilidade de contribuição relevante para a sociedade onde está inserida. Entretanto, é visível que essa liderança tem tido pouca influência positiva sobre as pessoas, inclusive aquelas que são conhecidas como fiéis integrantes da igreja. Os desvios éticos e morais, as divergências doutrinárias e a busca pelos próprios interesses são alguns dos problemas que tem prejudicado a formação de uma liderança que tenha alguma relevância para a sociedade. O presente artigo tem o propósito de mostrar que os princípios ensinados por Jesus Cristo e aplicados na vida de Martin Luther King Jr., extraindo valores e qualidades, baseados em outros líderes na história do povo de Israel, como Davi e Neemias, e nos discípulos de Jesus, que são importantes para formar líderes que tenham contribuição social. Para isto, a pesquisa bibliográfica foi utilizada como metodologia para extrair dados sobre o tema das obras de diversos autores como Hunter (2006), Carson (2014), Nicodemus (2008) e Getz (1994). Constatou-se que o amor ao próximo é o princípio basilar na formação de uma liderança de caráter na igreja, que desenvolverá valores e qualidades importantes para ter relevância na sociedade.


Palavras-chaves: Formação. Liderança. Igreja. Influência. Sociedade. 


[1] Graduado em Teologia pela FATERJ; Bacharel em Teologia pelo SETEB; Líder formado pelo Instituto Haggai Brasil.



INTRODUÇÃO

No estudo sobre liderança é possível encontrar uma palavra que a conceitua de forma precisa, influência. Esta ação que o líder provoca sobre o seu liderado deve levar ao interesse deste na realização de uma determinada tarefa com entusiasmo (HUNTER, 2006). De forma que a influência obtenha resultados positivos para a organização e para o próprio liderado.

Todavia, é possível perceber, ao longo da história, que houve algumas personalidades que inspiraram pessoas a executar tarefas que, de forma geral, não foram positivas. Hitler é um exemplo disto ao reerguer a Alemanha como potência econômica e militar e a unificar o povo, mas levando esta nação a conquistar alguns países europeus e a polícia nazista a massacrar os judeus (SHEDD, 2000).

Já Martin Luther King, pastor protestante batista, foi um exemplo positivo de liderança porque lutou em defesa dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Ele é um modelo de liderança que mobilizou toda uma comunidade de forma positiva para mudar e melhorar a realidade de sua época. Essa mobilização levou a Suprema Corte americana por um fim a segregação racial em algumas cidades americanas e, posteriormente, o nascimento da lei dos Direitos Civis, deixando um legado na sociedade ocidental atual (CARSON, 2014).

Os princípios aplicados por King nas mobilizações pelos direitos civis americanos são perceptivelmente os mesmos encontrados na religião cristã, na qual ele e sua família estavam inseridos. Todavia, na igreja cristã evangélica contemporânea se observa a formação de líderes que exercem uma influência nociva aos fiéis e, consequentemente, à sociedade, assumindo comportamentos não compatíveis com os ensinamentos basilares do cristianismo contidos na Bíblia (NICODEMUS, 2008).

Diante desta realidade, o presente artigo tem por objetivo responder ao seguinte questionamento: quais os princípios éticos e morais no cristianismo que alimentaram o caráter de King e de outros gestores, que contribuem para formar uma liderança nas igrejas cristãs que tenha relevância para a sociedade? Estes princípios contribuirão para diferenciar o bom do mau líder?

A metodologia aplicada nesta obra foi a pesquisa bibliográfica, onde buscou-se a análise e discussão da problematização de um projeto em referenciais bibliográficos disponíveis (CARVALHO, 2004). Essa procura se deu por meio de publicações de gestores, de administração de empresas, de pastores, de historiadores e da bibliografia de King.

Com isso, para responder ao questionamento, o trabalho foi construído em quatro tópicos. O primeiro busca apresentar os conceitos de liderança, inclusive algumas teorias sobre estrutura organizacional e sua contribuição na formação de liderança. O segundo expõe a contextualização histórica da formação do King como um líder eclesiástico que influenciou a sociedade na luta pelos direitos civis. O terceiro mostra a atual situação da igreja cristã evangélica no Brasil, no intuito de identificar os problemas de uma liderança pouco relevante a sociedade. Por fim, o último tópico aborda os princípios éticos e morais contidos na Bíblia que devem ser aplicados na formação de líderes na igreja de forma a transformar o caráter destes para exercer uma contribuição positiva no meio social em que vive.

Averiguou-se após essa discussão teórica que os autores concordam que a formação de um líder inclinado para a prática correta doutrinária prescrita nos princípios bíblicos vai além da conduta e comportamento. Está intrínseca no caráter de quem sofre uma transformação mental para agir com amor pelas pessoas, tem a sabedoria, fé e desejo de servir as pessoas como princípios básicos e possui valores importantes como passividade, amabilidade, boa educação, justiça e honestidade.


CONCEITOS DE LIDERANÇA

Para obter os princípios éticos e morais para formar líderes nas igrejas capazes de exercer uma influência saudável na comunidade, é necessário inicialmente compreender o que é liderança – é uma arte, uma habilidade ou uma função na organização? Assim como, também é importante entender quem pode exercer o papel de líder e quais os níveis de alcance destes numa organização e comunidade.

Hunter (2006, p.18) apresenta que liderança é “a habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente visando atingir objetivos comuns, inspirando confiança por meio da força do caráter”, destacando que a mesma é uma habilidade, um talento, uma aptidão. Esta definição também afirma que a competência está na influência em que o líder exerce sobre uma pessoa para que execute tarefas com satisfação. Além disso, reforça que esta inspiração está no caráter de quem está na direção.

Outra contribuição de Hunter (2006) é encontrada na declaração do que não é liderança, porque muito se confunde líder com gerente ou chefe. Gerência é um cargo ou uma atribuição exercida por alguém que tem alguma capacidade técnica numa determinada área. O chefe é aquele que está num cargo elevado – pode ser presidente, gerente, supervisor ou coordenador – numa associação, num setor específico, numa empresa, ou seja, numa organização. Nem sempre o gerente ou chefe tem a desenvoltura para lidar com pessoas, pois a sua capacidade está em lidar com tarefas e é estritamente técnica.

Hunter (2006, p.29) ainda completa:
O verdadeiro teste da eficiência do líder é o seguinte: Seus funcionários são pessoas melhores e estão mais qualificadas em consequência de sua liderança e influência? Seus filhos estão se tornando seres humanos eficazes, capazes de amar os pais, de liderar e servir os outros?

O líder é capaz de inspirar pessoas. Também deve inspirar ideias, projetos, situações. Essa inspiração vem do talento em animar o liderado, não somente em executar tarefas, mas em desenvolver projetos, colocar ideias em prática, resolver problemas, corrigir desvios no processo ou no comportamento. Embora seja visível que nas organizações existam chefes que desanimam os seus subordinados, eles não devem ser considerados líderes, justamente por causa da sua influência negativa (CORTELLA, 2011).

Cortella (2011) apresenta a liderança como uma virtude, uma força interior, que qualquer homem ou mulher pode desenvolver, afirmando que a diferença entre o líder e o subordinado está na circunstância em que se encontram. Isso, porque existem algumas situações no processo organizacional em que o liderado pode trocar de posição com seu dirigente porque tem mais competência para direcionar um determinado trabalho. Aqui este se torna o líder e deve influenciar positivamente seu liderado.

Cortella (2011, p.93) ainda afirma que os líderes “são homens e mulheres que ajudam indivíduos e equipes a fazerem a travessia rumo ao futuro”. Isso é um guia companheiro, que busca levar os liderados a terem um horizonte positivo. Esse autor usa a relação do termo companhia com o termo original da junção latina “cun, pan, ia”, que significa “vão com o mesmo pão”. Então, o líder companheiro é aquele que reparte o pão na viagem.

Em relação às organizações, é importante destacar que a estrutura de uma empresa ou organização tradicional é semelhante a uma pirâmide dividida em camadas. No topo desse tipo de corporação estão os principais executivos, como presidente e diretores, que tem a função de controlar e tomar as decisões operacionais. Já na base estão os empregados que atendem os clientes e que precisam seguir normas, padrões e regras determinadas pela chefia (CARLZON, 2005).

Carlzon (2005) questiona este tipo de organização por limitar a tomada de decisão daqueles que tratam diretamente com o usuário do produto da empresa, tornando o processo burocrático e lento. Com isso, ele aponta como solução a descentralização da organização, onde aqueles da base da pirâmide passam a ter responsabilidades delegadas para tomar decisões.

Todavia, os diretores nesta nova estrutura organizacional mais plana necessitam construir uma boa comunicação com seus empregados, compartilhando com eles a visão da empresa e atendendo as necessidades deles para realizar esta visão (CARLZON, 2005). Então, o chefe se torna um líder porque passa a ser professor e a inspirar a sua equipe a se sentir parte do processo, não só meros executantes.

Outro conceito interessante de Carlzon (2005) sobre o líder é que o mesmo não precisa ser alguém que sabe fazer tudo no processo, ou melhor, ser um especialista em todas as áreas da organização, mas aquele que consegue aglomerar, de forma estratégica para atingir os objetivos comuns, o conhecimento e a capacidade de todos os envolvidos no processo. O autor chama isso de “visão-helicóptero”, como se o líder pudesse sobrevoar o terreno para ver os detalhes e enxergar a configuração deste.

Esses conceitos de liderança permitem enxergar no guia alguém que, por meio da sua influência positiva, leva a sua equipe a se sentir parte do processo e motivada para alcançar os objetivos da organização. Daí, retorna-se ao conceito de Hunter (2006) onde o líder tem esse papel estimulado pelo seu caráter. O caráter é “a firmeza moral de uma pessoa, portanto, é o sinal visível de sua natureza interior. É o que somos por baixo de nossa personalidade” (HUNTER, 2006, p.82). Aquele que possui um bom caráter busca fazer a coisa certa, apresentando maturidade moral. E o líder sempre deve buscar fazer a coisa certa, seguindo valores e princípios saudáveis para atingir os seus objetivos e motivar a sua equipe.



UM LÍDER RELEVANTE PARA A SOCIEDADE

Uma das maiores referências de líder cristão contemporâneo com relevância social é Martin Luther King Jr., que era pastor da Igreja Batista da Avenida Dexter em Montgomery, Alabama, Estados Unidos, quando se tornou conhecido pela luta contra a segregação racial nos ônibus da cidade. Todavia, todo o seu engajamento social não se deu somente pela sua posição pastoral, mas teve toda uma formação ética e moral dada, desde a infância, pela sua família e igreja, que formou o seu caráter para influenciar não só esta cidade, mas muitas outras regiões dos Estados Unidos (CARSON, 2014).

O seu pai era pastor da Igreja Batista Ebenezer, em Atlanta, Estados Unidos, onde King cresceu, engajado em movimentos sociais pelos direitos civis dos negros em sua cidade e tinha um comportamento contrário ao sistema segregacionista. Isto ficou marcado para King quando seu pai disse: “Não importa por quanto tempo eu tenha de viver com esse sistema, nunca vou aceita-lo” (KING apud CARSON, 2014, p.18).

Shedd (2000) escreve que o líder como Jesus Cristo precisa exercer uma influência que aplica uma mudança benéfica e duradoura no indivíduo. Essa era a filosofia que o pai do King aplicava em sua atuação social e eclesiástica e que transmitiu ao filho para também exercer a sua liderança e levar os Estados Unidos a aprovar a Lei de Direitos Civis e da Lei de Direitos Eleitorais, extinguindo as leis segregacionistas e permitindo o negro a votar.

Em seu período de estudo no Seminário Teológico Crozer, King se aprofundou nos estudos teológicos, bíblicos e sociais. Além de conhecer os ensinos de Jesus Cristo e a atuação social deste, também teve a oportunidade de conhecer os escritos de Rauschenbusch e aprender que qualquer religião que se preze necessita se preocupar não só com as almas dos homens, mas com sua condição econômica e social (CARSON, 2014).

Também foi em Crozer que este líder conheceu a filosofia que mais dominou as suas estratégias de luta, a força do amor empregado por Mahatma Gandhi no movimento de resistência não violenta na Índia. “Gandhi foi provavelmente a primeira pessoa na história a elevar a ética do amor de Jesus acima da mera interação entre indivíduos como força social amplamente poderoso e eficaz.” (CARSON, 2014, p.34). Para ele, o amor era um forte mecanismo de mudança social e coletiva. A partir daí, King só precisou relacionar estas teorias e práticas sociais com os ensinamentos bíblicos aprendidos desde a infância.

A Bíblia, dita sagrada pelos cristãos, aborda que a fé precisa ser demonstrada por meio das obras e exemplifica isso na ação social a uma pessoa necessitada:
Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta. (SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL, 2007, p.1095).

A vida de Jesus se destacou pelos seus ensinamentos de paz, amor e esperança e pela prática destes ensinos. Ele abençoou os humildes de espírito, os mansos, os misericordiosos, os limpos de coração e os pacificadores. Curou os cegos, os aleijados e outros doentes. Alimentou multidões em diversas ocasiões por compaixão. E repreendeu aqueles que detinham o poder e oprimiam a sociedade (SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL, 2007). Desta forma, deixou um legado de ensinos que influenciaram diversos discípulos, inclusive King, como já foi dito neste trabalho.

Ao se formar em Teologia e também concluir seu doutorado na Universidade de Boston, King foi pastorear a igreja supracitada. A comunidade negra estava inserida numa segregação racial. Por isso, o pastor percebeu que a necessidade deles não era só espiritual, mas social também. Shedd (2000) afirma que não é necessário apenas habilidade para exercer a liderança, mas estar disposto a fazer a obra. Isto, o King possuía quando assumiu a presidência da Associação para o Progresso de Montgomery (MIA, sigla em inglês) que coordenou o boicote aos ônibus da cidade (CARSON, 2014).

Como o pastor percebeu que a filosofia de amor ao próximo e não violência de Jesus poderia ser aplicada não só em conflitos individuais, mas numa nação e grupos raciais, por meio do que aprendeu com Gandhi, o movimento da MIA aplicou este método, conseguindo conter a violência até dos mais exaltados que se envolviam nos protestos (CARSON, 2014).

King não atuou somente em Montgomery. Após obterem o sucesso do movimento, o fim da segregação racial nos ônibus desta cidade, ele foi convocado para participar e liderar movimentos antissegregacionistas nas cidades de Albany, Birmingham (maior cidade industrial do sul dos Estados Unidos na época) e Selma no Alabama, e Chicago no Illinois (segunda maior cidade americana). Além disso, recebeu a simpatia de John Kennedy, ex-presidente americano, e recebeu o Prêmio Nobel da Paz de 1964 (CARSON, 2014).

Com isso, percebe-se que a formação que King recebeu em sua família, regida por princípios e valores cristãos, em sua igreja, por meio dos ensinamentos de Jesus, e no Seminário, onde conheceu Gandhi, moldou o seu caráter, deu a ele disposição para a luta e o capacitou para influenciar uma sociedade americana degradada pela segregação racial. Isto, culminou nas leis de direito civis existentes não só nos Estados Unidos, mas nas nações influenciadas por esta.


A FALTA DE ATUAÇÃO SOCIAL DA IGREJA EVANGÉLICA BRASILEIRA

A igreja protestante, também denominada atualmente de evangélica, chegou no Brasil no período colonial (1500-1822) com a invasão francesa no Rio de Janeiro (1555-1567) e, principalmente, dos holandeses no Nordeste (1630-1654) que fundaram as primeiras igrejas protestantes. Entretanto, as igrejas organizadas no Brasil não podiam se reunir publicamente em estruturas semelhantes a templos. Com isso, a tão desejada liberdade religiosa só veio a ser homologada no início da República, através do Decreto nº. 119-A/1890. De lá para cá, os protestantes fundaram seminários e escolas (MATOS, 2012) e cresceram em número de adesão e de diversidade de igrejas (IBGE, 2010).

Existem diversos tipos de igrejas evangélicas. Essa diversidade de grupos é chamada de denominações. Presbiterianos, luteranos, batistas, congregacionais, Assembleia de Deus, Deus é Amor, Igreja de Cristo, Igreja Universal do Reino de Deus, Internacional da Graça e Ministério da Restauração são alguns exemplos desses conjuntos (MATOS, 2012).

Um dos ensinamentos básicos do cristianismo é amar ao próximo como a si mesmo (SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL, 2007). Todavia, os seguidores destas igrejas evangélicas não têm demonstrado este amor no âmbito social. A quantidade de doutrinas divergentes da Bíblia, o declínio moral e ético dos líderes, a ausência de padrões morais entre os cristãos e a busca pelos próprios interesses naqueles que participam das igrejas são alguns exemplos dos problemas existentes na igreja evangélica no Brasil. Estes são alguns problemas que têm levado os evangélicos a não terem relevância social (NICODEMUS, 2008).

Paulo foi um dos seguidores de Jesus que teve grande destaque na história da igreja e que escreveu boa parte da doutrina registrada na Bíblia. Ele ensinou que os seguidores de Jesus devem transformar o mundo por meio da renovação da própria mente, sempre ter maior consideração pelas pessoas do que por si mesmo e a servi-las como se estivessem servindo a Deus (SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL, 2007). Nicodemus (2015) aponta justamente como provável causa dos problemas da igreja à inexistência dessa renovação da mente, consideração e serviço às pessoas por parte de um grande número dos adeptos ao cristianismo.

Enquanto a doutrina cristã tem como diretrizes os ensinamentos apresentados anteriormente, vê-se entre os membros das igrejas evangélicas comportamentos contrários, como: agressões, calúnias, mentiras, discórdias, imoralidade, desonestidade, ódio e amor ao dinheiro e poder. Isso tem levado os cristãos a viverem sem se preocupar com a sociedade e focar a fé no suprimento dos próprios desejos (NICODEMUS, 2015).

Ainda segundo Nicodemus (2008), embora a igreja evangélica tenha crescido, como comprovado pelo Censo dois anos depois (IBGE, 2010), os evangélicos não tem feito diferença na sociedade brasileira em questões éticas, de usos e costumes, como uma força que influencia a cultura para o bem. Existem muitos movimentos, como shows e músicas e grandes reuniões com palestras de mensagens positivas. Falta unidade entre os evangélicos, pois é visível que não há entendimento entre eles. Tudo isso ocorre porque o ensino da Bíblia, fonte dos ensinamentos cristãos, é pouco ou quase inexistente em grande parte das denominações.

Apesar de todos esses problemas da igreja evangélica no Brasil, existe uma grande expectativa, por parte de diversos líderes e membros, que ocorra uma transformação nos cristãos para que se consiga perceber a necessidade de conhecer a fonte e aprender os ensinamentos de amor e renovação (NICODEMUS, 2008). Somente com os princípios extraídos da Bíblia será possível formar também líderes que sejam relevantes a sociedade como King (SHEDD, 2000).


PRINCÍPIOS PARA UMA LIDERANÇA CRISTÃ RELEVANTE

Como visto nas seções anteriores, King percebeu que o povo da nação da qual pertencia ele sofria sérios problemas sociais e que ele deveria tomar parte na luta por reconstruir a sociedade. Assim também aconteceu com um personagem bíblico, Neemias. Segundo consta na Bíblia, este foi um judeu que serviu como copeiro do rei persa Artaxerxes. Após descobrir que o seu povo sofria grande miséria em uma Jerusalém destruída decidiu iniciar a empreitada de reconstrução da cidade e da moral dos seus concidadãos (SWINDOLL, 2004).

Outra referência de liderança no meio cristão foi um dos reis da antiga Israel, chamado Davi. Tinha como característica forte a de influenciar positivamente pessoas marginalizadas a se transformarem em guerreiros de destaque, fazê-las enfrentar momentos de crise de forma honrada e justa, sem agir com leviandade perante os inimigos e, principalmente, seu próprio povo (VEREECKEN, 2007). Entretanto, Jesus é a maior referência de líder e professor que esta religião possui pela forma como influenciou os seus seguidores durante os três anos e meio em que compartilhou seus ensinos (GETZ, 1994).
Ao fim desses três anos e meio, Jesus havia alcançado basicamente dois alvos importantes tratando-se de estratégia: havia saturado a mente das multidões com seus ensinamentos e preparado um pequeno grupo de homens a fundo, para participarem de seu trabalho e fazerem a colheita. Depois de sua morte e ressurreição (o propósito básico de sua vinda a este mundo), deu a seus seguidores uma grande tarefa evangelística: “Fazei discípulos! ” (GETZ, 1994, p. 64).

O grande líder dos cristãos não só ensinou como também ordenou que os seus alunos se tornassem professores de outros, difundindo as mesmas instruções recebidas (SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL, 2007). Isto é conhecido como discipulado e representa o “fazei discípulos”. Ele também demonstrou como uma liderança deveria servir para gerar grandes resultados para as pessoas (BLANCHARD; HYBELS; HODGES, 2001). E é a partir deste modelo que serão extraídos os princípios para que um líder cristão seja relevante na sociedade como Jesus e King.

Dusilek (1996) afirma que diversos pesquisadores da administração – Courtois, Stogdill, Beckman e Montgomery são alguns deles – relacionaram qualidades que um líder deve possuir. Dentre essas, ela destacou dez em comum: ambição, competência, visão, iniciativa, tenacidade, autocontrole, confiança, simpatia, entusiasmo e autenticidade. Todavia, estas características também são encontradas num contexto empresarial, onde a diretoria, supervisão e coordenação tenha somente o objetivo de alcançar resultados positivos para a organização e, não necessariamente, para os funcionários.

Maxwell (2007) se dispôs a dissertar sobre algumas qualidades importantes para um líder, onde são encontradas: carisma, comprometimento, comunicação, coragem, discernimento, foco, generosidade, iniciativa, relacionar-se bem com as pessoas, ser prestativo e pronto para aprender. Nesta lista já é possível observar virtudes que demonstram um caráter preocupado com as pessoas envolvidas com a organização e sociedade.

Já Shedd (2000) apresenta o interesse de abordar não somente características importantes para desenvolver a liderança, mas também a necessidade de se ter um caráter digno de confiança. Para isso, ele declara que, além da visão, valores, motivação, conhecimento administrativo e renovação, é necessário que se tenha um caráter moldado pela sabedoria, fé, amor e desejo de servir as pessoas para ser um líder que impacta a organização e sociedade.

Porém, é na religião cristã, onde não é novidade elaborar listas com qualidades necessárias para liderança na Bíblia, que se encontra o registro de duas listas desenvolvidas por um dos discípulos de Jesus, conhecido no cristianismo como apóstolo Paulo. A primeira foi enviada para o seu discípulo Timóteo, que atuava como líder da igreja localizada na cidade antiga de Éfeso, e a outra para o seu também pupilo Tito, pastor na igreja na ilha de Creta. Nelas possuem características como: ser irrepreensível, respeitável, pacífico, amável, bom educador, justo e honesto e ter os filhos sob a sua autoridade. Estas são virtudes que um líder piedoso deve demonstrar, provando que tem interesse pelo bem estar, não só espiritual, das pessoas (SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL, 2007).


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante de toda a análise bibliográfica acerca da formação de líderes na igreja e sua contribuição a sociedade, percebeu-se que a influência positiva de uma liderança está na boa construção do caráter das pessoas. Estas que desejarem e desenvolverem sua habilidade para liderar tem grande possibilidade de levar outras a implementarem os projetos e as ideias pessoais, da organização e também da sociedade a que pertencem.

Davi, Neemias e King foram personagens usados neste trabalho como exemplos de guias que perceberam as dificuldades do povo. Com a força do caráter deles, influenciaram os outros a realizarem ações que culminaram numa mudança social positiva. O primeiro foi a transformação de marginais em soldados valentes e valorosos. O segundo levou os moradores de Jerusalém a reconstruírem a cidade. E o terceiro conduziu a nação a elaborar leis de direitos civis não segregacionistas.

Outro ponto em comum desses exemplos está no princípio do amor ao próximo ensinado por Jesus Cristo e difundido pelos discípulos dele as gerações seguintes. Esta difusão se deu por meio da Bíblia, dita sagrada pelos cristãos, que apontam para os princípios e valores necessários para que um líder exerça a sua influência positivamente na organização, de forma que as suas ações possam repercutir na sociedade a que ele pertença.

Apesar dos problemas éticos e morais de parte da liderança na igreja evangélica brasileira contemporânea, outros princípios somados ao amor serão a sabedoria, a fé e o desejo de servir as pessoas. Assim como carisma, comprometimento, coragem, discernimento, generosidade, amabilidade, educação, passividade, justiça e honestidade e habilidade de ter os filhos sob a sua autoridade são valores e qualidades importantes para o líder.
Desta forma, a liderança formada na igreja cristã evangélica só terá relevância social se conduzir a formação de guias que tenham como base os ensinamentos de Jesus Cristo que estão contidos na Bíblia. Se este livro dito sagrado pelos cristãos continuar sendo esquecido pelos professores na igreja, continuarão formando líderes irrelevantes para a sociedade.


REFERÊNCIAS

Bíblia da Liderança Cristã. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2007.

BLANCHARD, Kenneth; HYBELS, Bill; HODGES, Phil. Liderando com a Bíblia: ensinamentos de Jesus para renovar a sua empresa. Tradução de Cássia Maria Nasser. Rio de Janeiro: Campus, 2001.

CARLZON, Jan. A hora da verdade. Tradução de Maria Luiza Newlands da Silveira. Rio de Janeiro: Sextante, 2005.

CARSON, Clayborne (org). A autobiografia de Martin Luther King. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

CARNEIRO, Rafael; CARVALHO, Daniel; FERNANDA, Helen; SARTORATO, Eduardo. Pesquisa bibliográfica. Disponível em: . Acesso em: 01 de dezembro de 2015.

Comunicação Social. Censo 2010: número de católicos cai e aumenta o de evangélicos, espíritas e sem religião. Disponível em: <http://censo2010.ibge.gov.br/noticias-censo.html?view=noticia&id=3&idnoticia=2170&busca=1&t=censo-2010-numero-catolicos-cai-aumenta-evangelicos-espiritas-sem-religiao>. Acesso em: 03 nov. 2015.

CORTELLA, Mário Sérgio. Qual é a tua obra?: inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. 17. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.

DUSILEK, Nancy Gonçalves. Liderança cristã: a arte de crescer com as pessoas. 5 ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1996.

GETZ, Gene. Igreja: forma e essência: o corpo de Cristo pelos ângulos das Escrituras, da história e da cultura. Tradução de Márcio Loureiro Redondo. São Paulo: Vida Nova, 1994.

HUNTER, James. Como se tornar um líder servidor. Tradução de A. B. Pinheiro de Lemos. Rio de Janeiro: Sextante, 2006.

MATOS, Alderi Souza de. História do protestantismo no Brasil. Disponível em: <http://www.mackenzie.br/6994.html>. Acesso em: 28 nov. 2015.

MAXWELL, John. As 21 indispensáveis qualidades de um líder. Tradução por Josué Ribeiro. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2007.

NICODEMUS, Augustus. O que estão fazendo com a Igreja: ascensão e queda do movimento evangélico brasileiro. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.

_____. Polêmicas na Igreja: doutrinas, práticas e movimentos que enfraquecem o cristianismo. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2015.

SHEDD, Russel P. O líder que Deus usa: resgatando a liderança bíblica para a igreja no novo milênio. Tradução de Edmilson F. Bizerra. São Paulo: Vida Nova, 2000.

SWINDOLL, Charles R. Liderança em tempo de crise: como Neemias motivou seu povo para alcançar uma visão. Tradução de Neyd Siqueira. São Paulo: Mundo Cristão, 2004.

VEREECKEN, John. O líder vencedor: como os exemplos do rei Davi podem transformá-lo em um líder campeão. Tradução de Ana Carla Lacerda. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2007.

Comentários

Excelente artigo, bem fundamentado. Temática bem atual e relevante. Bibliografia rica. Bom, vejo atualmente um movimento de cobrança para capacitação, atualização e formação de líderes a qualquer custo, mas, sem de fato, haver uma preocupação com a formação e os valores. Vendo de uma ótica profissional, de mercado, por assim dizer, testemunho que os valores bíblicos e o modelo de liderança de Cristo são aplicáveis em todos os contextos. Tudo o que temos de mais moderno em termo de gestão e liderança só conduz as práticas do Mestre. Para igreja, acredito que 2 Timóteo 2:2 se aplicado de forma honesta e totalmente dependente de Deus, produz resultados inimagináveis a partir da transformação da mente de discípulo e discipulador. Formando discípulos de Jesus. Novamente, excelente texto. Deus seja contigo.

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