PRECISAMOS FALAR DE SUICÍDIO NA ADOLESCÊNCIA?

por João Marcos Bezerra – jmarcoscb@gmail.com



No segundo semestre de 2016 fui ao cinema com um grupo de adolescentes da igreja assistir ao filme Nerve, que conta a história de Vee que na busca por “provar que tem atitude” se inscreve como jogadora num “jogo online onde as pessoas precisam executar tarefas ordenadas pelos próprios participantes”, no intuito de ganhar likes e dinheiro. Quem não cumpria as tarefas ou desistia perdia tudo e passava a ser somente um observador do jogo, junto com os outros que optavam por somente observar desde o início[1]. As tarefas iam de coisas simples a ações bem desafiadoras. Depois de uma série de desafios a Vee consegue disputar a final do Nerve e a missão era um homicídio.
No começo do mês de abril de 2017 “bombou” notícias sobre o ‘Desafio da Baleia Azul’, que consiste numa “série de 50 atividades que envolvem asfixia, automutilação, queimar a pele e, no extremo [e último desafio], o suicídio”[2]. Em vários casos de adolescentes suicidas no Brasil, as autoridades públicas suspeitavam de ligação com este jogo. Confesso que achei bem parecido com o Nerve.
Em seguida saiu a informação de que o desafio começou como um boato na Rússia em 2015 e alguns loucos que gostaram da ideia a tornaram real. No final de abril de 2017 foram dezoito casos noticiados de suicídio de adolescentes e jovens, onde, apesar de ainda estarem em investigação na época, em dois descartaram a relação com a ‘Baleia Azul’ e três foram confirmados². O número pode parecer pequeno, mas assusta porque um boato e cinematográfico desafio se tornaram reais bem perto de nós.
Praticamente no mesmo período que surgiram as notícias sobre o ‘Desafio da Baleia Azul’, estreou pela Netflix a série ‘Thirteen Reasons Why’, conhecida no Brasil como ‘Os 13 Porquês’, baseado no livro de mesmo nome do escritor Jay Asher. A série e o livro contam “por meio de fitas cassetes” os motivos de Hannah Baker se suicidar e a relação destas razões com os personagens da série[3]. Assisti a série e achei bem interessante porque levanta a discussão sobre suicídio, bullying, assédio e abuso sexual, depressão, machismo e inconsequência na adolescência. Por outro lado, a série erra em romantizar o suicídio e apontar culpados para a decisão da protagonista[4].
Acredito que o filme, o desafio e a série/livro trazem à tona a necessidade de falar sobre suicídio e, principalmente, sobre o que leva um adolescente ou jovem a decidir tirar a própria vida. Mattes (2017) captou da série cinco erros da Hannah: desobediência aos pais, frequência em lugares errados, não procurou ajuda (ela não se abriu com o conselheiro e não conversou com os pais), não perdoou e, principalmente, não se satisfez em Deus. Estes também foram erros de outras pessoas que tomaram a mesma decisão.
Uma vez conversando com um adolescente amigo sobre a série ele me disse: “para ela a última saída para acabar com todo sofrimento, não só na escola, mas no meio familiar, infelizmente foi o suicídio”. Infelizmente, muitos dos nossos adolescentes e jovens estão sem esperança alguma. Mesmo que algo pareça banal para um, para outro é uma tempestade. Cada um tem uma resposta diferente para a dor e o sofrimento.
Collins[5] (2004, p.126) apresenta um diagrama mostrando que a dor pode gerar raiva no coração de uma pessoa, que pode gerar o sentimento de vingança, podendo gerar uma ação destrutiva ou sintomas psicossomáticos ou depressão, no intuito de esconder a dor, a raiva e o desejo de retaliação. Com isso, é possível observar que alguém que pensa em suicídio como última forma de eliminar o sofrimento já está em nível avançado de dor, raiva e desejo de vingança.
Outra fala desse adolescente foi que “além dela tirar a vida por causa do sofrimento, na cabeça dela ia ser um alívio para as outras pessoas”. Isto é uma realidade na vida de muitos adolescentes e jovens. Quando eles chegam neste nível de decisão, eles sentem uma culpa também porque acreditam que estão fazendo outros (pais, amigos, professores, colegas, vizinhos etc.) sofrerem.
Com isso, para evitar a dor e o sofrimento, os adolescentes e jovens precisam entender que a sua satisfação e esperança devem estar em Deus (Ec 12.1; Fp 4.12,13); que é necessário perdoar aos seus ofensores (Mt 18.21,22; Rm 12.19,21); que devem procurar ajuda sempre que precisar, buscando alguém de sua confiança e mais madura (Ec 4.9,10; Tg 5.16); que não devem desobedecer aos pais (Ef 6.1-3); e, que devem evitar as más companhias e fazer o que não convém (1Co 10.23; 15.33). Se a moçada não seguir estas dicas importantes, ficará mais vulnerável (MATTES).
Já como pais, precisamos instruir os filhos de acordo com a Palavra de Deus (Pv 22.6), impondo limites, sendo presentes e amorosos, pedindo perdão quando errarem, amando a Deus primeiro (MATTES), sendo exemplo de vida. Não devemos dizer aos nossos filhos o que fazer, mas mostrar o que fazer com nossas atitudes. Se não tivermos este comportamento de instrução e amor, temos uma grande chance de perder os nossos filhos literalmente.
E como igreja, precisamos ensinar o Evangelho de Cristo (Mt 28.19,20), que promove a obediência aos pais, a prática do amor e do perdão, a satisfação no Senhor. Além disso, precisamos estar junto dos pais e da moçada, ouvindo e orientando, e estimular a confissão das culpas e pecados, orando uns pelos outros para que haja cura (Tg 5.16, 1Jo 1.9). O adolescente e o jovem devem ter na igreja e em seus líderes um ambiente e caminhada de confiança e acolhimento. A instrução que a igreja oferece aos adolescentes e jovens é suplementar (que adiciona) a dos pais (principais instrutores).
Então, é necessário falar sobre suicídio na adolescência sim, mas também tomar uma atitude para impedir que os nossos adolescentes e jovens deem fim as suas vidas. Os próprios adolescentes e jovens, os pais e a igreja devem trabalhar juntos, assumindo o papel de cada um, deixando claro que estamos juntos na caminhada e que, principalmente, há esperança para todos. Jesus Cristo é a única esperança! Ele pode livrar qualquer um da dor, da culpa e do sofrimento. Amém!


[1] WIKIPÉDIA. Nerve. Disponível no site https://pt.wikipedia.org/wiki/Nerve. Acessado em 28/4/2017.
[2] MELERO, Maria Beatriz. Desafio da Baleia Azul: como andam as investigações no Brasil. Disponível no site http://claudia.abril.com.br/sua-vida/desafio-baleia-azul-investigacoes-brasil/. Acessado em 28/4/2017.
[3] WIKIPÉDIA. Thirteen reasons why. Disponível no site https://pt.wikipedia.org/wiki/Thirteen_Reasons_Why. Acessado em 28/4/2017.
[4] MATTES, Tiago. 5 erros de Hannah Baker. Vídeo disponível no site https://www.youtube.com/watch?v=INenqsQkUmo. Acessado em 27/4/2017.
[5] COLLINS, Gary R. Aconselhamento cristão: edição século 21. Tradução Lucília Marques Pereira da Silva. São Paulo: Vida Nova, 2004.

Comentários

Excelente, Pr.JM! Parabéns pelo artigo e pela pertinência do tema.

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