CONSIDERAÇÕES SOBRE A M...


Por Adriano Estevam
Missionário da JOCUM
Publicação autorizada por Ana Luiza Augusto

Merda...
Isto seria o suficiente para espantar a primeira leva de leitores. Parariam por aqui mesmo na primeira linha. Um texto que começa com merda não pode dar em boa coisa...
Mas propositadamente resolvi abordar o assunto da merda, ou talvez, a merda do assunto. Isto seria suficiente para espantar uma segunda leva de leitores: os que são impedidos de pensar em merda, e em qualquer outro assunto, apenas por causa da religiosidade pudica e malcheirosa de nossos dias.
Mas se você foi capaz de resistir a dois parágrafos, de merda, acredito que juntos podemos refletir um pouco sobre um dos mais incompreendidos mistérios de nossa breve humanidade: nossa própria merda...
 Com toda certeza a merda é o mais antigo indicador "psicossocial" da história humana... Se o cidadão é um canalha, é “mais ruim” que merda debaixo da unha; Se não é bom, é um merda; se deu errado, deu merda; se foi a bancarrota, foi a merda; se é pra ir as últimas consequências, que vá a merda; se é um derrotado, é um merdinha; se alguém estragou tudo, jogaram merda no ventilador, e pasmem, se contra as expectativas o azarão deu sorte, é um cagão! Vejam só: para os artista, desejar merda ao companheiro pode até ser uma expressão de boa sorte antes de entrar no palco...
 A merda está em todo lugar, e não é raro fazer mais diferença que muitos cristãos. Nem sempre é possível saber quando existe um crente no lugar, mas com certeza é possivel saber, de longe até, quando há merda no recinto. Sua presença é denunciada em qualquer situação. Se você sentiu o fedor, é bem capaz de ter pisado nela, e se não pisou, ainda, alguém por perto atolou o pé. E o fedor é desagradável o suficiente para fazer perceber que naquele local existe algo que não deveria estar ali.
 Tem gente que tem nojo de merda. Da própria, e principalmente da dos outros.. tem ânsia de vômito quando vai ao banheiro. Evita tocar até no assunto. Já tem gente que vive de analisar a merda alheia, pra, quem sabe, salvar o seu dono de uma merda pior. Que profissão heróica... E não creditada. Sim, porque no fim das contas você agradece, quando muito, ao seu médico que apenas olhou o laudo, e que recebeu uma boa grana pra isto.
 Ouvi alguém dizer algo semelhante a isto uma vez e acho que tem realmente um certo fundo de verdade: Agências Missionárias como a JOCUM tinham que ter um ministério de "Detecção de Merda". Uma voz profética inconfundível que denunciasse a sujeira instantaneamente. Alguém que se levantasse quando o discipulador da ETED quiser aplicar uma "disciplina de silêncio" nos alunos, pra dizer, "irmão, esta disciplina não vai adiantar merda nenhuma!", ou pra dizer ao líder da base, quando ele quiser pedir dinheiro emprestado pra comprar um terreno pra Missão : "meu irmão, isto é quebra de princípio, vai dar merda..."
Deus foi muito gentil em permitir que ao nosso olfato, pecado não cheire como merda, do contrário este mundo seria inabitável. Talvez este seja exatamente o nosso problema: não ter nojo do nosso pecado, como temos nojo de nossa merda. Se tratássemos pecado como pecado, como tratamos merda como merda, aprenderíamos como Deus se sente com o nosso pecado. Especialmente porque a merda é o resultado do processo da vida... O alimento é ingerido, nutre, é processado e expelido. É natural, e involuntário... Como já disse a Rita Lee "tudo vira bosta". Já o pecado não é resultado nenhum processo natural ou involuntário. É escolha, decisão voluntária podre e suja.
Deus sempre ensinou a separar uma coisa da outra. Em Levítico 23:13, ensinando a importância da higiene no arraial, Ele ensina o povo a levar consigo uma pá para cobrir os excrementos, evitando assim a proliferação de doenças no meio do povo. Já sobre o pecado, outra ocasião Deus chama o profeta Ezequiel e diz : "Tu comerás como bolos de cevada, e a vista deles a assarás sobre o excremento humano (Ez. 4.12). O profeta reclama que nunca sequer tocou em coisa imunda, que dirá degustá-la. O Senhor então ordena ao profeta que ao invés de fezes humanas, use esterco bovino. Isto numa maneira de, entre outras coisas, simbolizar o estado de depravação da nação. O culto continuava dia após dia, embora o coração do povo estivesse corrompido. E os sacrifícios chegavam ao Senhor como oferta fétida, suja e enojante.
Embora nos ame com amor eterno, nosso pecado lhe causa asco, repulsa. E mesmo assim, quando ainda completamente envolvidos no asco, no pecado, ele nos ama, e sacrificialmente escolhe enviar Jesus, o filho para no limpar do estigma da podridão. Somente alguém que ama pode entender este mistério. Vi um pai recentemente levar sua filhinha no colo. Ela estava completamente suja, e a fralda cheia de cocô, que escorria pelas suas perninhas miúdas.
Ele gentilmente procura a torneira mais próxima, tira as roupinhas sujas da criança e com muito cuidado coloca-a, ainda em seus braços, debaixo da água corrente. Com as suas mãos ele limpa cuidadosamente a sujeira. O amor do pai pela criança fazia aquele homem ignorar o asco. Ela era mais importante que o seu estado, porém ele jamais permitiria que ela continuasse como estava.
Foi assim que Deus fez. Em seus braços o sangue de Jesus nos lava do asco e podridão. O seu amor foi maior que o nojo do nosso estado de depravação.
No dia em que aprendermos a tratar o pecado como sujeira podre, aceitaremos trocar os trapos de imundícia de nossa justiça por vestes limpas, brancas sem mácula ou ruga, vestes que só Jesus pode dar. Neste dia sim, seremos igreja e noiva, espalhando o bom perfume de Cristo.
Que Ele nos ajude.

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